I
Você não me conhece; não conhece nem a ti mesmo. Eu soube tudo sobre você quando, durante um sonho daqueles que não nos lembramos depois / mas basta uma pista qualquer e ele nos transborda, eu estava sentado em uma praça e de repente toquei sua mão. Não sei como fui parar lá, tampouco se você já estava a meu lado. Sonhos como esses não possuem tempo e pouco importa o espaço; constituem-se de um momento eterno, uma sublimação de todo o resto, e uma entrega tão completa que nos toca por inteiro, e quem participa desse instante não pode ser ninguém. São manifestações, as mais puras, no exato momento em que se encontram.
Toquei sua mão e estive dentro de você como alguém que procura por sua vida inteira a saída de um labirinto, e de súbito compreende que basta sempre virar à esquerda. Compreendi o que você busca tão incessantemente, o que te dá prazer, qual a sua dor, compreendi até mesmo que não devo, em hipótese alguma, curá-la, mesmo que eu saiba perfeitamente como; esta é a dor de sua humanidade, é o que nos faz rir e chorar sem motivo aparente. É o que te mantém apesar da névoa que nos cerca, sobretudo.
E o mais importante, eu senti teu cheiro. Deixei-me penetrar pelo perfume que você exalava, que não era do teu corpo, não era doce ou frio; apenas era seu. E por si só bastava para me encher de uma felicidade profunda, de uma incrível vontade de viver. Conservei esse perfume em algum recanto da minha alma, simplesmente para não ter que conviver com a frustrante lembrança inalcançável de tê-la algum dia. E acordei.
Mas então aconteceu. Foi em uma noite qualquer, uma dessas ruas incrivelmente compridas, cercadas por imponentes monumentos de pedra que as alongam ainda mais. Caminhava mas estava longe, vivendo algum de meus sonhos, enquanto o cigarro distraía meu corpo no longo caminho que todos percorremos algum dia, quando subitamente fui tragado dessa espécie de transe e jogado de cara na realidade, aquela com a qual havia sonhado. Seu perfume tornou a me invadir e então me lembrei da praça, do toque de sua mão e de como eu estava perdidamente apaixonado por você.
II
Você não me conhece, mas ando por aí buscando rastros de alguém que invadiu um sonho meu, sentou a meu lado e tocou minha mão. Quis perguntar seu nome, mas subitamente não era mais o mesmo sonho. Estava em lugar-nenhum, não podia falar ou mover-me, apenas sentia que você ainda estava a meu lado, e tive a impressão de que te amava. Não sei quanto tempo ficamos ali, nós, mas me pareceu uma eternidade. Acordei estranhamente feliz, sentindo uma inexplicável vontade de rir. E tive a certeza de que encontraria alguém hoje. Durante o dia esperei por você, a cada telefonema meu coração apertava dentro do peito, procurava entre os olhares que se cruzavam, cheguei até a tocar a mão de estranhos, acredite. Mas minha busca foi vã. Quando chegou a noite, antes de dormir eu chorei e odiei-te por não ter aparecido.
III
Eu caminho pela cidade, e sinto seu perfume a todo instante. Farejo-te feito lobo à espreita, mas sinto muito medo quando chego perto (entenda, para mim perto é sempre demais), e fujo acuado pela felicidade que já prepara um bote inevitável.
Desde aquele sonho invadido, o íntimo de meus dias transformaram-se do aqui-não-acontece-nada para o dia que virá. Vivo em uma sala de espelhos, buscando um reflexo que não é meu, nessa vastidão de solidão. Espero por você todos os dias, às vezes sinto que estás perto, mas a vertigem que me toma faz com que eu me afobe e me mostre cedo demais, ansiosa pelo assalto de sua volúpia. E então tenho a impressão de tê-lo assustado, onde quer que você esteja.
- Não sei nada sobre caçar.
- Não sei me portar como presa.
É estranho, percebemos os rituais mas não somos capazes de jogar. Enxergamos através, de forma tão clara, e todo esse véu de mistério não faz parte de nossa realidade. Afastamos símbolos, sentimos de forma crua, mas sempre o medo, o medo nos afasta, o medo deseja rituais, o medo propõe impossibilidades tentadoras, o medo nos transforma em sonho. Velado o olhar, selado o amor falado, atado o gesto salvador. O medo mata.
(Felipe Esteves)