O incrível embate em Maya

Postado em Contos em março 24, 2010 por Felipe Esteves

I

Você não me conhece; não conhece nem a ti mesmo. Eu soube tudo sobre você quando, durante um sonho daqueles que não nos lembramos depois / mas basta uma pista qualquer e ele nos transborda, eu estava sentado em uma praça e de repente toquei sua mão. Não sei como fui parar lá, tampouco se você já estava a meu lado. Sonhos como esses não possuem tempo e pouco importa o espaço; constituem-se de um momento eterno, uma sublimação de todo o resto, e uma entrega tão completa que nos toca por inteiro, e quem participa desse instante não pode ser ninguém. São manifestações, as mais puras, no exato momento em que se encontram.

Toquei sua mão e estive dentro de você como alguém que procura por sua vida inteira a saída de um labirinto, e de súbito compreende que basta sempre virar à esquerda. Compreendi o que você busca tão incessantemente, o que te dá prazer, qual a sua dor, compreendi até mesmo que não devo, em hipótese alguma, curá-la, mesmo que eu saiba perfeitamente como; esta é a dor de sua humanidade, é o que nos faz rir e chorar sem motivo aparente. É o que te mantém apesar da névoa que nos cerca, sobretudo.

E o mais importante, eu senti teu cheiro. Deixei-me penetrar pelo perfume que você exalava, que não era do teu corpo, não era doce ou frio; apenas era seu. E por si só bastava para me encher de uma felicidade profunda, de uma incrível vontade de viver. Conservei esse perfume em algum recanto da minha alma, simplesmente para não ter que conviver com a frustrante lembrança inalcançável de tê-la algum dia. E acordei.

Mas então aconteceu. Foi em uma noite qualquer, uma dessas ruas incrivelmente compridas, cercadas por imponentes monumentos de pedra que as alongam ainda mais. Caminhava mas estava longe, vivendo algum de meus sonhos, enquanto o cigarro distraía meu corpo no longo caminho que todos percorremos algum dia, quando subitamente fui tragado dessa espécie de transe e jogado de cara na realidade, aquela com a qual havia sonhado. Seu perfume tornou a me invadir e então me lembrei da praça, do toque de sua mão e de como eu estava perdidamente apaixonado por você.

II

Você não me conhece, mas ando por aí buscando rastros de alguém que invadiu um sonho meu, sentou a meu lado e tocou minha mão. Quis perguntar seu nome, mas subitamente não era mais o mesmo sonho. Estava em lugar-nenhum, não podia falar ou mover-me, apenas sentia que você ainda estava a meu lado, e tive a impressão de que te amava. Não sei quanto tempo ficamos ali, nós, mas me pareceu uma eternidade. Acordei estranhamente feliz, sentindo uma inexplicável vontade de rir. E tive a certeza de que encontraria alguém hoje. Durante o dia esperei por você, a cada telefonema meu coração apertava dentro do peito, procurava entre os olhares que se cruzavam, cheguei até a tocar a mão de estranhos, acredite. Mas minha busca foi vã. Quando chegou a noite, antes de dormir eu chorei e odiei-te por não ter aparecido.

III

Eu caminho pela cidade, e sinto seu perfume a todo instante. Farejo-te feito lobo à espreita, mas sinto muito medo quando chego perto (entenda, para mim perto é sempre demais), e fujo acuado pela felicidade que já prepara um bote inevitável.

Desde aquele sonho invadido, o íntimo de meus dias transformaram-se do aqui-não-acontece-nada para o dia que virá. Vivo em uma sala de espelhos, buscando um reflexo que não é meu, nessa vastidão de solidão. Espero por você todos os dias, às vezes sinto que estás perto, mas a vertigem que me toma faz com que eu me afobe e me mostre cedo demais, ansiosa pelo assalto de sua volúpia. E então tenho a impressão de tê-lo assustado, onde quer que você esteja.

- Não sei nada sobre caçar.

- Não sei me portar como presa.

É estranho, percebemos os rituais mas não somos capazes de jogar. Enxergamos através, de forma tão clara, e todo esse véu de mistério não faz parte de nossa realidade. Afastamos símbolos, sentimos de forma crua, mas sempre o medo, o medo nos afasta, o medo deseja rituais, o medo propõe impossibilidades tentadoras, o medo nos transforma em sonho. Velado o olhar, selado o amor falado, atado o gesto salvador. O medo mata.

(Felipe Esteves)

Kika

Postado em Uncategorized em dezembro 29, 2009 por Felipe Esteves

Você ainda não se foi,
mas já sinto sua falta.
Dói-me não poder estar contigo,
mas o que poderia fazer?
Um último aceno,
um carinho demorado,
sentir seu cheiro pela última vez.

De que adiantaria, no entanto?
Nada disso muda o fato
de que você está indo embora.

Foram longos dezesseis anos,
onde te vi crescer e cresci contigo.
Foram diversas as alegrias e os sustos,
mais da metade da minha vida.

Penso agora em você recém-nascida,
frágil e linda.
Em você jovem,
elegante e arteira,
indomável.
Sempre teve seu jeito,
nunca se dobrou a ninguém.

Agora, nos últimos meses de sua vida,
era visível o cansaço acumulado.
O corpo já não respondia tão bem,
faltava-lhe a agilidade de outrora.
Mas jamais perdeu sua elegância,
sempre te achei linda, a mais linda de todas.

E quando você reclamava sem parar,
chegando até a incomodar,
maltratada pelo tempo,
eu só a via em seu esplendor.
Sabia que sua vida chegava ao fim,
preparava-me para o inevitável.

Eis que tem início o processo
e escrevo rápido para me curar,
porque não posso estar contigo,
mas de que adiantaria também?
Conservo na memória sua lembrança mais bonita,
a única que lhe faz jus.

Vá em paz. Eu te amo.

(Felipe Esteves)

Sobre a inefável experiência de assistir ao Kraftwerk

Postado em Verborragia em março 21, 2009 por Felipe Esteves

Sem palavras.

Watching the Watchmen

Postado em Verborragia em março 13, 2009 por Felipe Esteves

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS

Não pretendo fazer exatamente uma resenha de Watchmen, acho que isso já foi muito bem feito pelo ToplessRobot (www.toplessrobot.com), mas gostaria de tecer alguns comentários.

Primeiro, uma curiosidade: nunca li a história em português, somente no inglês. Imaginei então que isso geraria uma situação interessante, o que de fato aconteceu: ouvia o que eu havia lido enquanto lia o que eu havia traduzido mentalmente. Uma situação sui generis, muito curiosa.

Em relação ao filme, já o vi duas vezes. Na primeira vez era impossível pensar com calma, já que assim que a tela ficou com aquele característico tom de amarelo eu comecei a tremer e a engolir o choro na cadeira do cinema. Foi uma sensação indescritível compreender que aquilo realmente estava acontecendo.

Os créditos de abertura são uma obra-prima, a narrativa foi muito bem condensada ali. Uma solução espetacular para dar conta dos flashbacks da graphic novel. Destaque para o pequeno Walter Kovacs, belíssimo presente antecipado para os fãs. A emoção voltou forte nessa hora.

Minha leitura do filme oscilou entre buscar na tela os quadrinhos e compreender a narrativa como uma adaptação, uma nova proposta. Felizmente optei pela segunda opção no fim das contas. Obviamente a graphic novel e o filme são linguagens completamente diferentes.

Isto posto, posso dizer que até o livro 6 da graphic – Rorschach na prisão – o filme desenrola-se muito bem, sendo uma adaptação felicíssima. Exceção talvez para a cena de sexo entre Dan e Laurie: “Hallellujah” como trilha é uma boa piada para os fãs, mas não me parece tão claro como na graphic o quão patético é Dan, impotente que precisa do uniforme para sentir-se homem novamente. O personagem de Dan está muito amenizado, de maneira geral. Um pouco mais palatável, é mais fácil ser simpático a ele no filme.

Destaque também para o livro 4. A narrativa picotada de Manhattan foi reproduzida com maestria. Ainda acho esse um dos momentos mais bonitos da história. Nossa concepção de tempo se retorce no decorrer da narrativa até ser explodida no final.

Voltando à prisão: aqui me parece faltar uma cena que seria crucial. A porradaria do Nite Owl e Jupiter na cadeia podem agradar aos estúdios, mas o tempo perdido ali seria muito melhor aproveitado – numa situação ideal, que fique claro – mostrando-se a cena do jantar na casa do psiquiatra. Ali é um ponto-chave da narrativa, na minha opinião, quando o psiquiatra responde ao seu convidado sobre o caso de Kitty Genovese. Naquele momento o médico é Rorschach. Naquele momento todos nós percebemos que podemos ser Rorschach. O “Tales of Black Freighter” apenas reforça essa idéia, na graphic.

Bem, a partir daí, acho que o filme se perde um bocado. Sinto falta da morte de Hollis Mason e a iniciativa de Dan partindo daí, como um babaca que é. Cego de raiva, então, acaba matando um sujeito no (Gunga Diner? não lembro agora). Mais uma vez, é Rorschach e é “Tales of Black Freighter”.

Toda a longa explicação de Adrian sobre seu plano na graphic é suprimida na história. A mudança do final não é um problema, mas a construção apoteótica até a revelação última é. No filme isso não acontece, é oferecido muito facilmente. O próprio Adrian se revela muito cedo, como bem apontou o ToplessRobot. E não por que eu já saiba o final.

Enfim, subitamente estamos em Karnak e o filme se aproxima do final. Surgem então alguns problemas, possivelmente restrições de estúdio:

- Nite Owl inconformado, revoltado, quando seria mais apropriado uma aceitação passiva e resignada. A saída dele e Jupiter de Karnak é patética; muito melhor a solução dos dois dormindo juntos, encontrando na fuga do sexo e do amor um caminho para lidar (?!) com questão tão complexa.

- Rorschach demonstrando tanta emoção fora do templo, tirando a máscara e chorando, não me convenceu. A solução mais rápida e fria da graphic condiz mais com o personagem. Essa humanização do personagem face à morte e à impossibilidade de relatar a situação retira um pouco da força de sua fala anterior.  “Never compromises. Not even in the face of Armageddon.”

- Bubastis: questão problemática. Foi lindo vê-la na tela, todos queríamos isso, tenho certeza. E foi um presente para os fãs,  conforme diretor e roteiristas afirmaram, uma questão a qual tiveram que defender. Adorei o presente, mas acaba por complicar o filme para os não-leitores. Que porra de tigre azul orelhudo é aquele no fim da história?! Soma-se a isso : Que porra de máscara é essa do Rorschach?! São incontornáveis para os fãs, sim.  Mas, para os fãs, tampouco o alien explodindo seria um problema. Uma solução que retirasse a trama dos escritores e cientistas poderia ser pensada. Então esse entre-lugar ocupado pelo filme acaba por se revelar problemático para ambos os lados.

- Final. Existe uma mudança nas provocações finais do filme. Na graphic, acredito que a sensação no fim da história seja de desolação e contradição: entre a opção de Rorschach, que levaria à guerra nuclear, e a de Ozymandias, cínica, fria, mas eficaz. Ao fim, quando o diário é encontrado, o leitor é convidado a experimentar a mesma sensação que os personagens que acabara de conhecer: sem um final determinado, cabe a ele decidir se o diário de Rorschach vai ser lido e publicado ou se a mentira permanecerá oculta garantindo a paz.

No filme, os personagens de Dan e Laurie saem como mocinhos, revoltados mas impassíveis de mudar a situação, Laurie se resolve com sua mãe, estão todos felizes. Sei não,  isso não me convenceu muito. Prefiro o tom mais ácido da graphic, anti-Hollywood por natureza. Não foi à toa que jogaram um pouco do açúcar “Sweet Chariot” no personagem de Rorschach na hora de sua morte.

De maneira geral, gostei do filme. Como iniciativa de fazer um projeto inviável vir à tona, estão de parabéns. Não poderia ter sido melhor. E como bem apontou um dos roteiristas do filme em carta pública, uma questão crucial se coloca: o filme não está sendo o sucesso esperado pelo estúdio. Decorre daí que um fracasso inviabilizaria qualquer futuro filme feito para os fãs, como Watchmen. Talvez ainda veja mais uma ou duas vezes no cinema, enquanto aguardo a versão do diretor em DVD, esperando pra saber o que ficou de fora e será adicionado.

Samsara

Postado em Poesias em março 10, 2009 por Felipe Esteves

O que fazer quando o resultado não é o esperado?

Quando é necessário, porém não satisfatório?

Quando não se pode nem mesmo agradecer,

pois não lhe sinto digno de meu potencial.

O que fazer quando é isso e pronto,

sem tempo para mudanças?

Talvez tempo haja,

mas é isso que desejo?

Tempo nunca me faltou,

Muito embora me parecesse intocável.

Agora não o desejo,

isso tenho por certo.

Tampouco me martirizo,

anseio por movimento.

O que seria digno de mim, portanto?

Saberei eu mesmo isso?

Aceito meu caminho,

eis que vislumbro algo de belo.

Basta-me a possibilidade.

(Felipe Esteves)

Destemperado

Postado em Contos em fevereiro 17, 2009 por Felipe Esteves

Teclo palavras como se fossem notas. Na confusa profusão de idéias em que me encontro, não há espaço para um rallentando. Caminho em prestíssimo por entre linhas, um crescendo que se direciona à cacofonia. Anseio por um adagio (e há de ser em tom menor). Etimologicamente, anseio pela comodidade. Meu ouvido é ferido pelas dissonâncias que disparo, não há acordo nessa composição. Como um trabalho de Sísifo, minha música desenvolve-se em círculos e volto ao início novamente.
Teclo palavras como se fossem notas em um solo virtuoso. Mas na mudez de meu coração, erro pela técnica e desconheço meu verdadeiro desejo. Não acompanho a orquestra. Não me apresento sozinho. Não componho mais nada. Mas ainda escrevo, com a técnica que me resta e a força de meus dedos. Quisera esquecer de tudo isso e tornar-me instrumento de algo novamente.

(Felipe Esteves)

(Extraído de um diálogo com Márcio Romão)

Sobre o vício

Postado em Palavras de outros em fevereiro 3, 2009 por Felipe Esteves

“-Você tem um cigarro?

-Estou tentando parar de fumar.

-Eu também.

-Mas queria uma coisa nas mãos agora.

-Você tem uma coisa nas mãos agora.

-Eu?

-Eu.”

(O dia que Júpiter encontrou Saturno – Caio Fernando Abreu)

Introdução à somatologia

Postado em Poesias em fevereiro 2, 2009 por Felipe Esteves

Se busco o desconhecido,
não quero surpresa alguma ao fim do caminho.
Não sei o que desejo,
e disso posso falar com certeza.
Mas bem sei não ser tudo capaz de me aplacar.

(Felipe Esteves)

Shattering Mirrors

Postado em Poesias em fevereiro 1, 2009 por Felipe Esteves

Quebro um espelho,

afasto um eu outro,

purifico-me.

Carrego reflexos em meu ser,

que há muito me assutam,

onde não me reconheço.

Então os afasto

e quebro espelhos

e meu sangue que tinge os estilhaços

não me deixa esquecer que fui eu

(e por isso mesmo dói).

Busco por minha alma

como quem atravessa um deserto,

destruindo o que não lhe pertence,

caminhando, cada vez mais

leve,

perde-se em oásis,

seduzido por uma brisa

breve,

mas a sensação de ilha,

permanece.

Ser ilha, estar no deserto,

é olhar no infinito e dentro.

É o só solistência de que nos fala Rosa,

é o confronto adiado,

a revelação temida.

Mas medo do quê?

Além do espelho,

só eu me resto.

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